No dia 26 de fevereiro de 2026, estivemos atentos a assistir a um webinar organizado pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar. O tema era o Financiamento e Sustentabilidade Financeira do SNS. No início ,ouvir os especialistas a falar de “pressão financeira” e de “sustentabilidade”, assustou um pouco. Para nós, que vivemos com uma Imunodeficiência Primária, ouvir dizer que falta dinheiro na saúde dá-nos um nó no estômago, porque o SNS é a nossa casa. É lá que recebemos os nossos tratamentos essenciais e somos acompanhados a vida toda.
Mas a boa notícia que vos trazemos hoje é que não vem aí o fim do mundo. O SNS não vai acabar. Pelo que aprendemos ao ouvir nomes muito conhecidos da saúde em Portugal, o que precisa de mudar urgentemente é a forma como o sistema está organizado. Fica aqui uma explicação do que se passa e o que pode melhorar para nós.

Porque é que isto nos interessa?
Falar de orçamentos e de dinheiros públicos parece coisa de políticos, mas afeta diretamente a nossa vida. A verdade é que ter um SNS que funcione bem é a nossa garantia de que não vão faltar as nossas terapias, de que os médicos têm tempo para nós e de que estamos seguros se tivermos uma infeção mais grave. Durante a conversa, ficou muito claro que o problema de fundo não é apenas atirar mais dinheiro para cima dos SNS. O grande desafio é saber como gastar bem esse dinheiro e como organizar as coisas para que o objetivo principal seja sempre melhorar a nossa qualidade de vida.
Como estão as coisas hoje em dia?
As contas da saúde andam muito apertadas, mas os especialistas explicaram que a culpa não é só da falta de euros. O sistema está cansado e mal organizado. Para terem uma ideia, os hospitais recebem orçamentos que muitas vezes já contam com cortes, o que torna difícil comprar o básico. Além disso, as coisas andam tão atrasadas que muitos hospitais começam o ano sem saber com que dinheiro podem contar. E depois há um problema antigo: o Ministério das Finanças só pensa em poupar e cortar gastos, enquanto o Ministério da Saúde quer tratar das pessoas. Como não se entendem bem, quem fica a perder somos nós e os profissionais de saúde, que têm de lidar com regras muito confusas no dia a dia.
O que tem corrido bem e o que tem falhado?
Nem tudo é mau, e é importante reconhecer os nossos pontos fortes. Foi dito pelos especialistas que, em Portugal, fazemos autênticos milagres com o pouco dinheiro que temos. Os nossos médicos, enfermeiros e todos os profissionais fazem muito com muito pouco, garantindo que os resultados dos nossos tratamentos são bastante bons quando comparados com países mais ricos. Além disso, no final do ano, o Estado acaba sempre por pagar as dívidas dos hospitais para garantir que nada fecha.
Por outro lado, há coisas que falham redondamente. Esquecemos boas ideias do passado, como controlar exatamente onde se gasta cada cêntimo. Os diretores dos hospitais também não têm liberdade para dar prémios ou aumentos às equipas que trabalham muito bem. Para piorar, muitas vezes quem manda nos hospitais é escolhido por amizades políticas e não por ser um bom gestor, o que estraga a confiança de todos no sistema.
As ideias para salvar o SNS
Para desatar este nó, os peritos deram ideias muito corajosas. Uma delas é mexer no bolso de quem gere mal os hospitais: sugeriram que os diretores que façam um mau trabalho durante três anos seguidos possam perder até 40% do seu salário. Por outro lado, quem trabalhar bem seria recompensado. Falaram também em criar “equipas de resgate”, ou seja, grupos de especialistas que iriam a correr para os hospitais mais problemáticos para ajudar a pôr a casa em ordem.
Para resolver as zangas entre os Ministérios, deram a ideia de pôr o pessoal das Finanças a trabalhar uns tempos na Saúde, e vice-versa, para verem a realidade uns dos outros e ganharem empatia. Para acabar com as listas de espera eternas, sugeriram copiar uma ideia de Inglaterra: criar centros rápidos só para cirurgias simples. Assim, os grandes hospitais ficariam livres para tratar os casos mais graves e urgentes, sem tanta confusão.
O que é o “Valor em Saúde” e como muda a nossa vida?
Uma parte interessante que explicaram foi um conceito chamado “Valor em Saúde”. No fundo, significa mudar o foco de tudo. Hoje, o hospital recebe dinheiro consoante o número de consultas ou tratamentos que faz. A ideia agora é que o hospital seja pago por conseguir manter-nos saudáveis e fora das urgências. O sucesso deixaria de ser medido apenas pelas análises ao sangue, e passaria a contar a nossa opinião: se não temos dores, se conseguimos ir trabalhar, ou se não andamos exaustos. Isto muda tudo para quem tem uma Imunodeficiência.
Para nós, isto significa que nos vão perguntar como nos sentimos no dia a dia, e essa resposta vai ser tão importante como os níveis de anticorpos no sangue. A prevenção vai ser a grande prioridade, focando na nossa qualidade de vida e terapeuticas melhor adaptadas ao doente.
Resumindo, as soluções existem e os especialistas sabem qual é o caminho. Agora, só falta que os políticos tenham a coragem de nos pôr, a nós doentes, em primeiro lugar. Nós, na APDIP, continuaremos cá para dar voz a estas necessidades.